“Eu grito, clamo, choro e desespero!
Ninguém me attende.
O mundo é surdo à voz
Do meu destino negro, eterno, atroz
Acérrimo, titânico e severo!
Eu sou o Ahasvero, o tal lendário Ahasvero,
Esse judeu extremamente algoz...
Esse judeu errante mais feroz,
Mais bruto, mais sanhudo, que Cerbero!
Eu sou o Ahasvero o monstro humano e velho
Das citações divinas do EVANGELHO...
Eu sou o Ahasvero, o ser excomnungado!
Eu sou o Ahasvero horrendo, vil, maldito,
O ser de atrocidades infinito
Que fez NOSSO SENHOR tão desgraçado!...”
(“Ahasvero” – Benedicto Franco – jornal “Cidade de Olympia” – 08/06/30)
Ahasvero ou Ahasverus, figura de judeu lendário. Exigia, aos gritos, a condenação de Cristo. Na caminhada para a crucificação, Cristo quis usar a porta da casa de Ahasvero para descansar, no que foi impedido pelo mesmo. Respondeu-lhe Cristo: “Eu vou descansar parado, mas tu vais caminhar eternamente...”
O ANTISSEMITISMO NO DISCURSO INTEGRALISTA NO SERTÃO DE SÃO PAULO: OS DISCÍPULOS DE BARROSO
A principal discussão em torno da Ação Integralista Brasileira sempre foi sua relação ideológica com o fascismo italiano. Plínio Salgado, afirmam os integralistas, nunca admitiu a influência fascista no movimento que considerava autóctone. No entanto, integralistas que publicaram na década de 1930 seus artigos no principal jornal de Olímpia, no interior de São Paulo, o “Cidade de Olympia”, fizeram desse parentesco ideológico uma de suas principais motivações de adesão à A.I.B. e, ao mesmo tempo, uma arma de propaganda no então sertão de São Paulo. Mas uma outra motivação foi capital para arrebatar os camisas-verdes: o antissemitismo.
A existência de uma corrente racista dentro da Ação Integralista Brasileira é outra importante discussão acerca do movimento liderado por Plínio Salgado, pois o antissemitismo foi abertamente inserido e defendido nos discursos de alguns dos principais integralistas, como Tenório D’Albuquerque, Madeira de Freitas, Ulyses Paranhos, em especial Gustavo Barroso e da maioria dos camisas-verdes que viveram neste naco do sertão chamado Olímpia e que revelaram suas facetas racista escrevendo artigos para o jornal “Cidade de Olympia”, periódico que circulou na região entre 1918 e o final da década de 1950. O semanário constitui-se numa espécie de porta-voz não oficial do núcleo municipal da Ação Integralista Brasileira, fundado na cidade em 1934, no qual inúmeros artigos antissemitas de autoria de integralistas foram publicados entre 1933 e 1937.
Todavia, os documentos oficiais da Ação Integralista Brasileira não fazem referências ao antissemitismo. No Artigo 4º (O Nosso Nacionalismo) do Manifesto de Outubro de 1932, nota-se que a A.I.B. procurava exprimir somente sua crítica à burguesia brasileira por deixar-se influenciar pelos costumes estrangeiros....
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Ouça música do folclore judáico.
Leia a seguir o primeiro ensaio antissemita publicado em Olympia:
A DEFESA DO COLONO BRASILEIRO
Expressão popularizada em nosso paiz desde as príscas éras dos capitães-generaes, affirma que o Brasil é o paraiso das mulheres, inférno dos homens e purgatório dos burros. O tempo e a sua inevitável consequencia, o progresso, vão desfazendo aos poucos a significação daquella partenda. As mulheres brancas, no período colonial rarissimas aqui, justificando os constantes pedidos que os jesuítas faziam a Portugal, que as enviasse "mesmo erradas", pois lograriam bons casamentos, andam hoje aos cardumes, por ahi, trabalham, labutam heroicamente nas officinas e escriptorios. O Brasil já não é o seu Eden.
O homem o pobre diabo o continua a supportar toda a sorte de miserias e de opressões. O seu captiveiro não cessou e não cessará. A principio, era um só patrão: o portuguez.
Hoje os algozes accorrem de toda a parte da terra, da Inglaterra, da China, da França, da Itália e do Japão.
Que dizer dos burros.
Substituidos, cada vez mais pelos motores-caminhões, na tracção de carga, e pelos comboios e autos, velicissimos na tracção de passageiros, desfructam os burros confortante repouso. Pastam tranquilamente nos longes verdes dos prados, olvidados dos seus carrascos. E esse descanço accentua-lhes o pendor philosophico. São os únicos philosophos aposentados num paiz onde só o funcionalismo público frue as delicias da compulsória.
Invertamos, por conseguinte, a ordem da oração: o Brasil é agora o paraíso dos burros, o inferno das mulheres e o purgatório dos homens. É o paraiso dos burros e dos judeus. Incluir estes últimos no rol dos muares póde parecer offensa aos innocentes animaes. Que elles nos perdoem o parallelo.
A verdade é que, apesar de admittido o nosso paiz como sendo o Eden terreal das filhas de Eva, isto aqui foi sempre a Chanaan dos homens burros e dos judeus. Quanto mais burro, mais peixe, diz o povo. E tem lá a sua razão. Há por esses escriptórios e casas commerciaes, jovens de esmerada educação, conhecendo tres e quatro idiomas, contabilidade, chimica, physica, etc., subordinandos miseravelmente a homens que, de humanos, só apresentam a estructura corporal.
Para triumphar na América basta a sagacidade da raposa e a audacia do tigre. O meio aqui não offerece resistencia. A organização nacional, aquelle alto sentimento de solidariedade racial que faz a grandeza dos povos europeus, não a possuimos ainda. O Brasil será ainda, por muito tempo, o paraiso dos burros e dos judeus. A escravidão branca substituiu a escravidão negra, extincta em 88. Não vai aqui a menor sombra de exaggero. Aggravada pela depressão cambial, e por muitos outros factores, atravessamos a mais augustiosa das situações financeiras.
Attingida em cheio por toda a sortes de calamidades, a classe de empregados brasileiros, a classe dos collaboradores dedicados da fortuna estrangeira precisava de uma voz desinteressada que bem alto clamasse, vindicando seus direitos. Aqui estamos empenhados nessa missão nobilitadora. Auscuitamos, por longo tempo, o martyrio obscuro desses emparedados dos Crésus modernos do capitalismo.
Ninguem ignora hoje que, pela força esmagadora das contingencias, esses infelizes, mal remunerados, fazendo prodigios para equilibrar-se dentro da receita que são desafios á moral mais resistente; ninguem ignora hoje que são elles o sustentaculo do commercio odiosissimo da agiotagem. E quem exerce essa industria, que póde ser chamada a industria sombria da miseria? O estrangeiro, em sua quasi totalidade. A vida dos empregados brasileiros está, pois, encerrada no triangulo de ferro formado por essa "troupe" sinistra: o patrão, o agiota e o mercador a prestações, estrangeiros. Ordenados infimos, supprimentos de dinheiro a juros arrazadores, artigos a preços elevadissimos, pelo engodo das prestações. Emquanto assim acontece os nababos invadem as avenidas aristocratas, com seus palacetes-architectura-bolo-de-confeitaria, rodam nas "Rolf-Royces" e, quando querem, ditam leis aos proprios legisladores do paiz.
(Da "Gazeta", de São Paulo)
REVISTA AGRÍCOLA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Número III, Abril-Maio-Junho de 1926, Dedicada às Fazendas do Município de Olympia
Editada em Olympia/SP
O agiota e o judeu sempre estiveram associados dentro do imaginário antissemita. Historicamente o judeu é acusado de explorar os indivíduos por meio da agiotagem. No artigo abaixo intitulado O Agiota algumas referências aos judeus estão explícitas:
O AGIOTA
Imagino o agiota um typo repellente e seboso. Occulos pretos e cabellos espessos e em desalinho. Barba crescida, maltratada e basta. Arcado ao peso do remorso (si é que o tem); andar vagaroso e indeciso. Sapatos rotos, sujos e abertos.
Imagino, emfim, o agiota um typo que vive com o dinheiro, do dinheiro e para o dinheiro, única e exclusivamente.
O agiota nos tempos bicudos que correm e de moderna civilisação com o avanço sempre crescente das conquistas sociaes, está passando por um mau quarto de hora.
Ainda recentemente Hitler, o famoso Fuher da nova Allemanha, acaba de expulsar de seu território, a golpes de chicote, innumeros indivíduos que abraçaram essa infeliz profissão, que é a da agiotagem.
Está provado, á face do mundo, que o agiota não tem Pátria pois esta para elle é o DINHEIRO. E no DINHEIRO elle tem a sua Pátria, a sua família e a sua sociedade. Fora dahi, o agiota não conhece o direito de ninguem.
Mas por fallar neste assumpto, o que vem a ser verdadeiramente um agiota?
Demos a palavra a Candido de Figueiredo e veremos.
AGIOTA: M. aquelle que procura ágio. Usurario. Homem interesseiro.
E usurário o que vem a ser?
Ainda Candido de Figueiredo vae demonstrar.
USURARIO: Adj. Que empresta com juro excessivo. Que tem o caracter da usura ou é acompanhado por Ella. M. aquelle que empresta com usura ou juro excessivo. Pop. Agiota, avarento. (Lat. Usurarius).
Usura, finalmente, o que será?
Ainda é o mesmo Candido de Figueiredo, quem nos define.
USURA: F. Juro de um capital. Juro de dinheiro que se emprestou. Contracto de empréstimo, com a clausula do pagamento de juros por parte de devedor! Juro excessivo; lucro exagerado. (Lat. Usura).
Como se viu, foi um mestre lingüístico quem espelhou e definiu a personalidade do agiota. Ethymologicamente elle prova á evidencia que o agiota é um individuo nocivo á sociedade e ao próprio meio em que vive.
Por isto é que dizemos que na phase actual porque passa o mundo, os homens nessas condições estão condemnados ao desapparecimento, pois não se admitte que em plena civilisação, quando o Homem volta as suas vistas para a terra, esta terra boa e dadivosa de onde deve aurir toda a subsistência preciosa que alimento o corpo e da-lhe vida, ainda exista indivíduos vivendo do suor e do labor insano de seus semelhantes. Porque o agiota ou usurário (como queira) aproveita-se sempre das opportunidades, para, como a ave de rapina, arrancar daquelles que lhes cahe nas garras, não só o ultimo vintém com juros escorchantes, como também a camisa de tecido grosso do corpo, sinão a própria vida.
Para traz, portanto, indivíduos desse jaez. Afastemos de nós semelhantes peçonhas e fujamos mesmo delles como satanaz da cruz.
Para os agiotas ou usurários, porem, já encontramos remédio na própria lei.
Ainda agora a Constituição Brasileira, promulgada solemnemente em 16 de julho ultimo, previne o caso da usura, isto é, o individuo que cobra juro excessivo ou melhor, fora da lei.
Diz a Constituição Brasileira, no seu § ÚNICO DO ARTIGO 117, o seguinte: “É prohibida a usura que será punida na forma da lei”.
Eis ahi pois o remedio jurídico contra o agiota, contra o usurario que aproveita do seu semelhante. Ninguem pode, em face da MÁXIMA LEI BRASILEIRA, cobrar juro de empréstimo com excesso que importe em caso de usura, pois si o fizer, será processado policial e judicialmente.
Ainda há poucos dias o “Estado de São Paulo”, de 5 do corrente, trazia numa de suas columnas pagas o seguinte aviso: “GUERRA AOS AGIOTAS”. De accordo com o que se resolveu na ultima reunião, as pessoas que ficaram encarregadas de colligir a documentação contra os usurários devem comparecer hoje, ás 21 horas, no local combinado afim de entregar os alludidos documentos e fornecer as necessárias informações aos advogados contractados para agir policial e judicialmente, contra os agiotas.
As testemunhas que irão depor sobre os factos relativos á agiotagem, poderão deixar seus nomes á pessoa designada na ultima reunião, até terça feira próxima. Findo este praso, dar-se-á a organisação definitiva dos elementos necessários á instrucção dos requerimentos de inquérito policial e queixa-crimes a serem requeridas.
Tratar-se-á também na reunião de hoje de combinar-se a data em que se SUSPENDERÃO A TODOS OS PAGAMENTOS E REFORMAS DE TITULOS EM PODER DE AGIOTAS. (Todos os griphos desta transcripção são nossos).
Como se viu pois, já se trata na Capital do Estado de mover guerra ao agiota. O effeito dessa guerra encontramos sem duvida alguma, no § único do artigo 117 da CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA, que convem, todos tenham em vista, affim de se prevenirem e evitar que o agiota continue a medrar como herva damninha.
Guerra, pois, ao agiota, guerra de vida e de morte.
Façamos como Hitler. Uma vez que ainda podemos expulsal-os do Paiz, ao menos expulsemos do nosso meio, de nossa sociedade, da cidade em que vivem corroendo o nosso dinheiro e sorrindo sarcasticamente de todos nós, sem um beneficio siquer praticar, quer individual, quer colletivo.
Afastemos de nós a figura machiavelica do agiota.
Exterminemos para sempre esta gangrena social de nosso organismo econômico.
Essa deve ser nossa divisa.
JUPITER
Jornal Cidade de Olympia, edição de 19 de agosto de 1934. Olympia/SP
Apesar de não fazer referência ao judeu, o texto a seguir, Sub-raça, estampa uma faceta abertamente preconceituosa:
SUB-RAÇA
Mozart Firmeza
O brasileiro não é uma raça: mas uma sub-raça.
Não sou eu quem diz. O dr. Alfredo Pinheiro, ilustre médico em São Paulo, é o autor da frase.
A affirmação não seria minha. Não, porque é inverdadeira, que não é; porém, porque não gosto de tirar a ilusão de ninguém.
Sou pela auto-suggestão. É capaz de tudo. Transporta, mesmo, montanhas. Os prophetas já o garantia, tratando da fé.
Aquelle que tenha confiança em si, confiança serena, sincera, absoluta, embora não valha um vintém, vencerá, ditatoriarà.
Deus fez o mundo, e soltou nelle os homens mais diversos. Abel não acreditava em si, e, por isso, erguia altares. Veiu Caim, que se tinha na conta de muito forte, e – zás! – deu-lhe com um pau na cabeça.
Naquelle tempo, a família humana era pequena, inicial, chamando se fraticídio ao que, hoje, é simplesmente assassínio...
O methodo da auto-suggestão começou, portanto, muito cedo, quando Marden não pensava, sequer, se lhe seria dada a graça de existir e de publicar livros sobre a educação da vontade.
São estes os motivos porque eu não diria, nunca, que o brasileiro é uma sub-raça.
Deixal-o-ia na arrogante com penetração de que é, de facto, audaz, rijo e conquistador.
A história da sub-raça surgiu devida á semana anti-alcoolica, levada a effeito no Brasil todo. O dr. Americo Pinheiro acha que não podemos, e nem devemos beber, em vista de não sermos bem formados physiologicamente.
Elle estudou a sciencia de Hippocrates. Tem talento, cultura, está affirmando uma coiza razoável.
Resta nos seguir o conselho de Acacio, de que é sempre cedo para se corrigir o mal.
Nós olhamos os allemães com muita sympathia, pela pujança da raça, esbelta, sadia, reflectindo o espírito heróico que os anima, e lembrando a phylosophia dos super-homens.
Pois, bem. O nudismo está integrado na Germania. Há, alli, colônias e colônias, de adeptos do nu sob os olhares benéficos do sol.
Decerto que não é só pôr-se ao fresco, imitando Eva no paraizo. Se esta possuía a “innocencia” na ignorância, natural, expontanea, innata, o nudismo, na Allemanha, tem que ter a “innocencia“ na cultura artificial, mas superior.
Esses núcleos onde se encontram os mais exóticos typos, numa babel de estheticas, ora ridículas, ora impressionantes de belleza, são verdadeiras escolas de alta philosophia e sciencia.
O Brasil precisa melhorar sua raça, ou sub-raça.
Aos raios de Appollo, não creio que advenham resultados. O sol é novidade na Europa.
Na medicina e na instucção, sim, talvez estivesse a solução do problema.
Mas, será difficil fazer alguma coisa, porque o povo tem medo dos médicos, e era possível que houvesse outra revolução...
Afora estes, só há um meio, legislado por Lycurgo. Em Sparta, as creanças débeis que vinham ao mundo, eram atiradas ao barathros, do monte Taigedo.
Assim, fez-se a eugenia, deixando os spartanos, á posteridade, uma fama de soldados formidáveis.
Jornal Cidade de Olympia, Olympia/SP, edição de 10 de abril de 1932.
ANTISSEMITISMO
As fotos desta galeria apresentam edições do jornal Cidade de Olympia, onde foram publicados os artigos com conteúdo antissemita e livros que disseminavam o antijudaismo pelo Brasil e pelo mundo.


