"PAI NOSSO" INTEGRALISTA
“Brasil nosso, que viveis em nosso coração, idolatrado seja o vosso nome. Venha a nós vossa Glória. Seja cumprido vosso grande Destino. Assim na América como no mundo. A paz de cada dia nos dae hoje. Tanto em São Paulo como nos Estados irmãos.Perdoae as nossas dissenções, assim como fizeram os nossos avôengos. Não nos deixeis cahir no communismo, mas livrae-nos da democracia liberal, Amém!...”
(Philemon Patráculo Ribeiro da Matta, Olympia/SP, 25 de março de 1934)
BREVE HISTÓRIA DO SURGIMENTO DA AÇÃO INTEGRALISTA
“...o integralismo foi, para vários jovens, mais do que um fanatismo e uma forma de resistência reacionária. Foi um tipo de interesse fecundo pelas coisas brasileiras, uma tentativa de substituir a platibanda liberalóide por algo mais vivo.”
(CÂNDIDO, Antonio. O significado de Raízes do Brasil, In Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. P. 12)
A Ação Integralista Brasileira foi fundada em 7 de outubro de 1932 pelo jornalista e escritor Plínio Salgado, ex-filiado ao P.R.P. – Partido Republicano Paulista. No dia 24 de fevereiro de 1932, São Paulo havia amanhecido manifestando grande agitação popular e um comício monstro em comemoração da Constituição de 1891, dava um indicativo da revolução constitucionalista que seria deflagrada em 9 de julho daquele ano.
No momento em que a enorme massa popular se comprimia na Praça da Sé, um grupo de intelectuais se reunia na redação do jornal A Razão sob a chefia de Plínio Salgado, que era o redator principal do diário. Plínio vinha preparando as idéias que dariam vida ao movimento havia um ano, publicando anonimamente a Nota Política, duas colunas diárias que analisavam a situação do país e colocava em evidência os pensadores que iriam influenciar a futura Ação Integralista: Alberto Torres, Farias Brito, Euclides da Cunha, Oliveira Lima, Joaquim Nabuco, Tavares Bastos e rememorava os fatos da monarquia e da república. Os artigos fizeram inúmeros admiradores de Plínio pelo país, como d. Helder Câmara, Jeovah Motta, Olbiano de Melo, J. C. Fairbanks e em Olímpia, Philemon Patráculo Ribeiro da Matta.
No dia 24 de fevereiro de 1932, Plínio organizou a Sociedade de Estudos Políticos (S.E.P.), constituída por José de Almeida Camargo, Mario Graciotti, Ataliba Nogueira, Alpínolo Lopes Casali, Antonio Toledo Piza, Iraci Igaiara, Mota Filho, Sebastião Pagano e vários outros. No dia 23 de maio, ocorreu o violento movimento popular contra o governo Vargas e o jornal A Razão foi empastelado, pois se posicionava contra a revolução paulista.
Entre maio e julho, Plínio redigiu o Manifesto que lançaria a A.I.B. em outubro. No entanto, a fundação do movimento foi adiada devido a Revolução Constitucionalista e no dia 7 de outubro foi oficialmente fundada a Ação Integralista Brasileira. A A.I.B. se afirmava uma convicção espiritualista e cristã, criticava as revoluções sem doutrina, sustentava o princípio tradicional da pátria, consubstanciado na expressão “Deus, Pátria e Família” e combatia o cosmopolitismo, o comunismo, o liberalismo, o capitalismo, o judaísmo e o sufrágio universal.
A Ação Integralista propunha a implantação do Estado Integral, baseado na concepção integral do homem, a visão global dos problemas e da realidade, em oposição à consideração unilateral e parcial deformante.[1]
Plínio Salgado reuniu em torno do integralismo os movimentos nacionalistas e de tendência fascista que pipocavam pelo Brasil no início dos anos 30. A A.I.B. chegou a reunir mais de 500 mil militantes (alguns autores falam em mais de um milhão), tornando-se o primeiro partido de massa e nacionalmente organizado. Os mais de três mil núcleos integralistas se espalharam por todo o Brasil. Em Olímpia, o núcleo municipal foi fundado em 1934 pelo estudante de direito Ruy do Amaral. Antes mesmo da fundação, o jornal “Cidade de Olympia” já publicava notícias e artigos sobre o movimento, especialmente por interferência do médico Philemon Ribeiro de Matta.
Plínio e a A.I.B. carregaram ao longo de sua trajetória o estigma de movimento fascista brasileiro, que os camisas-verdes olimpienses assumiram, não como estigma, mas como doutrina.
Fundamentos Doutrinários do Integralismo
A doutrina integralista alicerçava-se na concepção espiritualista do universo e do homem e acreditava num Deus pessoal e no destino sobrenatural do homem, tanto que a primeira frase do Manifesto de Outubro de 32 proclamava “Deus dirige os destinos dos povos”.[2] Essa crença derivava da primordialidade e na prevalência do espírito sobre a matéria, ou seja, na superposição dos valores da alma em relação às contingências do corpo, pois o homem não poderia procurar alicerce em si mesmo, porque o seu alicerce único seria Deus. Sendo assim, o integralismo defendia o primado do espiritual sobre o moral, do moral sobre o social, do social sobre o nacional e do nacional sobre o individual.
O materialismo constituiria-se, desta forma, a grande corrente que se oporia à concepção espiritualista do universo e do homem defendida pelo integralismo. O movimento propunha uma frente única espiritualista contra a onda avassaladora do materialismo, proclamando a existência de Deus e da alma do homem e não se imiscuindo no que se referia à disciplina religiosa adotada por este ou aquele. O Manifesto de Outubro afirmava que o homem deveria praticar sobre a terra as virtudes que o elevassem e o aperfeiçoassem, pois o homem valeria pelo trabalho, pelo sacrifício em favor da família, da pátria e da sociedade.[3] Segundo o integralismo, os homens e as classes deveriam viver em harmonia, tornando possível ao modesto operário galgar uma elevada posição financeira ou intelectual.[4]
O nacionalismo, o Estado integral e o corporativismo constituíam-se nos principais fundamentos da doutrina integralista.
Ouça o Hino da Acção Integralista Brasileira.
63 avante 1934-1935.mp3 (779,7 kB)
[1] LOUREIRO, Maria Amélia Salgado. O Integralismo – Síntese do Pensamento Político Doutrinário de Plínio Salgado. P. 51.
[2] Manifesto de Outubro de 1932. P. 3.
[3] Idem.
[4] Idem.
A HISTÓRIA DO NÚCLEO DA A.I.B. DE OLYMPIA
“...E nós, camisas-verdes da Pátria, em communhão de sentimentos, de pensamento, de fé em Deus, na Pátria e na Família, erguemos nossas almas ao Eterno, pedindo-Lhe que nos ajude, como tem ajudado desde o começo da campanha, e esteja presente em nossas reuniões, em nossos desfiles, em nossas excursões de propaganda, em todos os nossos actos, até ao dia da Victória...”
(Trecho da prece em homenagem ao primeiro desfile integralista em 23/04/33 – Jornal “Cidade de Olympia”, 28/04/35)
O Núcleo Municipal da Ação Integralista Brasileira foi fundado em 1934 pelo então estudante Ruy do Amaral, que cursava Direito em São Paulo onde se tornou integralista. Amaral era filho do advogado José Benedito Nino do Amaral que havia se estabelecido em Olympia em 1920. A data oficial da fundação não é conhecida, pois não existem documentos do núcleo. A história pode ser parcialmente reconstruída a partir de depoimentos orais e notícias de jornal. Ainda assim, não há nenhuma notícia no semanário “Cidade de Olympia” que identifique a data exata e nem os detalhes da fundação. No entanto, Ruy do Amaral, na época com 17 anos, conta que decidiu fundar o núcleo da A.I.B. em Olímpia como resultado da sua filiação ao integralismo na Capital paulista: “De volta a Olympia comecei a aliciar entre meus amigos, conhecidos, pessoas com quem tinha alguma relação os futuros integralistas, enfim eu fazia uma campanha, propaganda daquelas idéias que eu já tinha adotado como minhas.” Amaral descreve que constituiu o primeiro grupo de integralistas da qual estava à testa porque não havia ninguém na cidade para assumir o posto. Apoiado depois por algumas pessoas, Ruy do Amaral organizou uma espécie de diretório, de conselho municipal da Ação Integralista conseguindo o apoio de seu pai, Nino do Amaral, indicado para ocupar a chefia municipal provisória. Os primeiros adeptos ao integralismo em Olympia foram Ruy do Amaral, Nino do Amaral e Sebastião Prado. Logo depois da fundação, foi constituído um grupo de camisas-verdes que girava entre 30 e 40 militantes, que passou a ter uma atuação um pouco mais destacada na vida política municipal, inclusive apoiando a candidatura a prefeito de Mario Vieira Marcondes, antigo chefe do Partido Municipal Independente. Ruy do Amaral se encarregou de desenvolver a propaganda do candidato que acabou eleito, sem no entanto convidar a A.I.B. para participar de seu governo. Na realidade, essa aliança entre os integralistas e o Partido Municipal não teve nenhum ingrediente ideológico, prevaleceram apenas as relações de compadrio. É que Mario Vieira Marcondes era padrinho de Ruy do Amaral. Em relação aos outros partidos existentes na cidade os camisas-verdes se limitavam a criticá-los doutrinariamente, sem atingir as pessoas....
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À SOMBRA DO FASCISMO: O DISCURSO INTEGRALISTA EM OLÍMPIA
"Antes de transpores esta porta, consulta teu coração: És capaz de renunciar aos prazeres, ambições, interesses, à própria vida, pela grandeza da Pátria? Se ele disser "sim" então entre e encontrarás aqui teus irmãos e tua glória.“
A principal discussão em torno da AIB é sua relação ideológica com o fascismo italiano. Afinal, Plínio Salgado, mentor intelectual do Sigma, era ou não fascista? Até que ponto o fascismo influencio Plínio na concepção do integralismo? Salgado jamais admitiu ser fascista ou ter sido influenciado por esta ideologia, como admitiram outros importantes integralistas, ente eles Miguel Reale e Gustavo Barroso.
A maioria absoluta dos estudos independentes aponta na direção de considerar o integralismo como um fascismo brasileiro, com destaque para o livro “Integralismo – O Fascismo Brasileiro na Década de 30”, de Hélgio Trindade, cuja segunda edição data de 1979. A antítese à teoria da relação entre as duas ideologias parte principalmente do livro “O Integralismo de Plínio Salgado – Forma de Regressividade no Capitalismo Hiper-Tardio”, de José Chasin.
Essa é uma discussão praticamente superada na historiografia brasileira, o que não ocorre em relação ao fascismo pela historiografia mundial. Não podemos considerar essas duas ideologias fora de combate. Os movimentos neofascistas pelo mundo, especialmente na Europa, e uma espécie de “renascimento integralista”, visível através de núcleos ainda ativos, centros de estudos, sites na Internet e milhares de velhos e novos camisas-verdes disseminando as idéias de Plínio pelo Brasil são uma prova disso. Mas esse debate torna-se instigante também na medida em que se procura analisar o discurso integralista e sua relação com o fascismo na imprensa do interior paulista.
Apesar de não ser o objeto principal da nossa pesquisa é necessário buscar algumas posições sobre o fascismo, já que a ideologia integralista é identificada com a ideologia italiana e os artigos de integralistas publicados no jornal “Cidade de Olympia” não deixam margem à dúvida....
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À SOMBRA DO FASCISMO, O DISCURSO INTEGRALISTA EM OLYMPIA.pdf (276,9 kB)
O ELITISMO INTEGRALISTA EM OLYMPIA: UM “FASCIO DE INTELECTUAIS”
“Os homens nada valem, quando não encontram idéas que têm de ser vencedoras... Serão todos levados, de roldão, pela fatalidade dos acontecimentos históricos, quando essas idéas ficarem completamente maduras no sub-consciente das massas... e no consciente das elites.”
(Philemon da Matta, A Acção Integralista. Jornal “Cidade de Olympia”, 30/07/33)
Vimos que o discurso integralista em Olympia era notadamente fascista e que os camisas-verdes que escreviam para o jornal “Cidade de Olympia” exploravam o parentesco entre as duas doutrinas como arma de propaganda. Nos conturbados anos 30, comunismo e fascismo dividiam o cenário político-ideológico mundial como as únicas doutrinas capazes de salvar as nações da “derrocada liberal”.
Enquanto os inimigos do comunismo o disseminavam como uma ameaça à civilização cristã, o integralismo-fascismo apresentava-se como a única alternativa viável (“ou eles ou nós”) capaz, por exemplo, de garantir a sobrevivência dessa civilização cristã. A solução integralista-fascista seria eficaz para conter o avanço comunista no Brasil e salvar o país do fracasso representado pela Revolução de 30, avaliada como mais uma ação liberal desastrada.
A característica do integralismo-fascismo em Olympia foi a fuga da realidade local e o refúgio num discurso emocional e mistificador que criava ou reproduzia imagens com o propósito de cooptar adeptos, mas que estava distante da realidade de uma cidade encravada no sertão paulista, marcada não por disputas políticas ideológicas, mas por embates localistas, de cunho clientelista e oligárquico, ao qual se opunha o integralismo....
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O “FASCIO DE INTELECTUAIS” E O ASPECTO RURAL DE OLYMPIA
“A vida da roça é ingrata, sim; mas, tem mais encantos, mais alegrias, mais abundância e mais...sim, mais honradez.
As cidades offerecem conforto e diversões, mas lá há tantas chagas sociaes, misérias, tanta falta de socego!”
(Extraído da “Revista Agrícola de Olympia”, 1925)
O município de Olympia está localizado a 450 quilômetros da Capital paulista e na década de 1930 situava-se no que se convencionou chamar de sertão paulista. Mas o que seria o sertão? O dicionário Aurélio fala em terreno coberto de mato, longe do litoral ou ainda, interior pouco povoado.[1] Entretanto, para o caso específico da zona de Olympia, sertão foi a penúltima fronteira a ser desbravada e povoada no Estado de São Paulo[2]. O desbravamento e o povoamento partiram do litoral em direção ao interior, seguindo a trilha aberta pelo café, especialmente a partir do final do século XIX. Eram, portanto, chamadas de sertão as zonas ainda pouco habitadas, de economia agrária, distantes da Capital e que começavam a se desenvolver com a chegada das estradas de ferro e que em pouco tempo demonstravam pujança econômica e despertavam o sonho de enriquecimento em muita gente.
A zona de Olympia, constituída por municípios como São José do Rio Preto, Bebedouro, Catanduva e Barretos, só teve seu progresso alavancado a partir dos anos de 1920, quando a riqueza produzida pelo café começou a despertar o interesse de migrantes e imigrantes. Nos anos 20 e 30 tinham enorme importância as colônias de italianos, espanhóis, portugueses e japoneses em Olympia. Tanto que em 1925, 56,7% dos cafeeiros existentes no município pertenciam a estrangeiros, principalmente italianos....
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O FASCIO DE INTELECTUAIS E O ASPECTO RURAL DE OLYMPIA.pdf (232 kB)
ANAUÊ! PELO BEM DO SERTÃO
As fotos a seguir apresentam os três principais integralistas do sertão olimpiense: o médico Philemon Patráculo Ribeiro da Matta e os advogados Rui do Amaral e Ítalo Galli. Também edições do jornal Cidade de Olympia, espécie de porta-voz não oficial do núcleo municipal da Acção Integralista Brasileira.















